terça-feira, 21 de setembro de 2010

O frescor do velho novo


Na próxima quarta (29), uma das maiores lendas vivas do rock mundial completa 75 anos. Trata-se de Jerry Lee Lewis, o The Killer, compositor e pianista americano cujo estilo único de tocar, martelando as teclas ora de pé, ora com a perna esticada em cima do piano, marcou gerações e ficará impresso para sempre no imaginário popular dos amantes da boa música. Dono de um inimitável topete e considerado um dos pioneiros do rock and roll ao lado de músicos como Chuck Berry, Lewis já figurou no Hall of Fame do Rock And Roll em 1986 e em 2005. Em 2004, a revista Rolling Stone colocou-o em vigésimo quarto lugar no seu ranking dos 100 melhores artistas de todos os tempos.

Assim como Elvis Presley, Lewis cresceu cantando música gospel nas igrejas pentecostais no sul dos Estados Unidos. Deixando a música religiosa para trás, ele tornou-se parte do recém-surgido movimento rock and roll, lançando sua primeira gravação em 1954 com um som misto de rhythm and blues, boogie-woogie, gospel e country.  

As apresentações de Lewis eram dinâmicas. Ele chutava o banquinho do piano da sua frente para poder tocar de pé, deslizava e batia suas mãos pelas teclas, subia no piano, pisava nas teclas e até mesmo sentava em cima delas. Chegou a botar fogo em um piano, jogando fluido de isqueiro dentro da cauda do mesmo, somente por ter de deixar Chuck Berry encerrar o show; fato que ele não aceitava. Seu estilo frenético pode ser conferido em filmes como High School Confidential e The Girl Can't Help It.

Para comemorar não só o aniversário, mas também os 55 anos desta carreira de sucesso, o músico lança agora Mean Old Man, uma verdadeira viagem sonora de aproximadamente 60 minutos na qual figuram alguns dos muitos amigos e admiradores que o artista acumulou ao longo da sua premiada trajetória. Entre os convidados estão ninguém menos do que Solomon Burke, Eric Clapton, Sheryl Crow, John Fogerty, Merle Haggard, Mick Jagger, Kid Rock, Kris Kristofferson, Nils Lofgren, Shelby Lynne, Tim McGraw, John Mayer, Willie Nelson, Keith Richards, Robbie Robertson, Slash, Mavis Staples, Ringo Starr e Ronnie Wood.

No repertório, além dos antigos e imortais clássicos de sua carreira, repaginados com uma vitalidade de dar inveja a qualquer franguinho da nova geração da música, novas canções também aparecem para provar que a verve criativa do The Killer continua intacta e bem afiada. O percurso trilhado em Mean Old Man é bem semelhante ao tomado em 2006 com Last Man Standing, que já trazia uma série de convidados, inclusive repetindo alguns dos hits chave desse período: Rockin My Life Away, que desta vez conta com as participações de Kid Rock e Slash, Middle Age Crazy, com Tim McGraw e Jon Brion, e a faixa-título, escrita para ele por Kris Kristofferson, são alguns destes hits.

Saindo em duas versões, uma delas de luxo, Mean Old Man foi produzido por Jim Keltner e Steve Bing, na velha e tradicional Memphis, em Los Angeles.

sábado, 18 de setembro de 2010

Arte moldada e viva

Localizado em Caruaru, no Agreste Pernambucano, Alto do Moura guarda o que há de mais genuíno na arte figurativa brasileira


Conhecido como a Princesinha do Agreste, Caruaru, município pernambucano localizado a cerca de 140 km de Recife, é famoso pelo mercado têxtil em crescente expansão e pelos ritmos variantes do forró que embalam as ruas da região durante todas as suas tradicionais festas populares. Porém, não é só dos balanços nordestinos e do ramo confeccionista que vive a Capital do Agreste. Quem visita a cidade não pode deixar de conhecer o Alto do Moura, uma pequena comunidade de artistas distante 7 km do centro da cidade onde vivem e trabalham mais de mil artesãos, em sua grande maioria filhos e netos de ceramistas tradicionais da região.

Uma das personalidades mais ilustres e emblemáticas da localidade é o Mestre Vitalino, um dos precursores no Brasil da chamada arte figurativa. Sua casa, atualmente transformada em museu, é uma das primeiras a despontar na rua de terra batida rodeada de pequenos casabres, todos tão humildes quanto a sua antiga morada. Hoje habitada pelos filhos e netos que deram continuidade à sua obra, o espaço é, a despeito da exacerbada simplicidade, objeto de visitação de gente do mundo inteiro, encantando os turistas pela riqueza de detalhes e cuidado com que a história da vida no sertão pode ser contada através do barro.

Se estivesse vivo, Vitalino já teria seus quase 101 anos. Porém, ao contrário de suas peças de barro já escurecidas pelo tempo, sua obra não envelheceu, servindo de referência estilística para a maioria dos bonequeiros locais.

É o caso, por exemplo, do Mestre Luiz Antônio da Silva, contemporâneo e discípulo direto do Mestre Vitalino. Com 75 anos de idade, 52 dedicados à arte, o artesão já teve seus trabalhos expostos em diversas partes do Brasil e do mundo. Há alguns anos, foi convidado a passar uma temporada no Japão. Foram 46 dias, nos quais produzou mais de 200 peças a partir de 100 kg de barro. Já em 1986, importou mais de 600 fusquinhas para a Alemanha. "As pessoas dão valor, especialmente as que conhecem o mundo e sabem que o que se faz aqui é diferente de tudo", afirma sem esconder o orgulho.

Além das usuais temáticas sertanejas presentes no cardápio iconográfico do Alto do Moura, Mestre Luiz Antônio traz um diferencial: é fácil perceber em seu acervo a presença constante da interação do homem com a máquina. Desse modo, pessoas munidas de máquinas fotográficas e filmadoras, eletricistas modificando instalações elétricas em postes e miniaturas de automóveis são recorrentes em sua coleção de bonecos.

Cenas do cotidiano


Se para nós a mistura soa inusitada, para Luiz Antônio é tudo um reflexo de suas experiências de vida e do processo histórico pelo qual passou o Alto do Moura. "Modelo no barro as coisas que vivo e as mudanças que experimento. Por exemplo, meu primeiro contato com uma filmadora de vídeo foi em uma ocasião há quase 30 anos em que uma equipe de TV esteve aqui na cidade. O equipamento acabou ficando na minha casa, e por curiosidade eu resolvi reproduzir as formas e incluir nas minhas criações", conta.

Representando sua vida no barro, como ele mesmo gosta de dizer, Luiz Antônio também é famoso pelas réplicas de pároco, que remetem a um de seus filhos que é padre, e dos carros de fórmula um, lembrança da data de morte de Ayrton Sena. "Sempre transportei para o terreno das artes as cenas do meu cotidiano, da minha família e da minha comunidade", explica.   

Sem medo de romper padrões

Outra cena bastante recorrente na obra do mestre Luiz Antônio são os partos, tanto humanos quanto veterinários. "Minha mãe era parteira, daí a ligação tão forte com o tema. Dos meus 10 filhos, apenas um não nasceu por suas mãos. Porém, quando eu iniciei a produção de algumas peças com essas características, todos ficavam horrorizados, falavam que era uma coisa feia, que não devia ser retratada", explica. Apesar disso, o mestre nunca teve medo de modelar o que fazia sentido para si, independente da opinião das outras pessoas. "Tem coisa mais bonita e mais humana do que nascer?", brinca.

Herança em forma de arte       

Atualmente, Luiz Antônio e sua esposa Odete possuem 10 filhos e 22 netos, a maioria empenhada em aprender e repassar para as próximas gerações a arte do barro e da criação artística. "Dos meus 10 rebentos, apenas dois não vivem mais no Alto do Moura. O restante, juntamente com sua prole, mora aqui e tira sustento da arte, da produção feita a partir do barro", conta, orgulhoso.

Porém, apesar da união artística familiar, cada um possui o seu espaço, o que segundo seu Luiz resguarda a identidade de cada artista. "Só vendo o que eu faço, nem os meus filhos vendem aqui na minha loja. Cada um tem o seu próprio empreendimento, sua rotina de trabalho e sua maneira de lidar com o barro", explica.

Aliás, no quesito produção, o Mestre Luiz Antônio é um crítico ferrenho do chamado artesanato de forma, que utiliza moldes para manter uma certa padronização nas peças. "Detesto quem trabalha com forma, pois descaracteriza completamente a arte do barro, pautada nas características individuais e únicas de cada peça e no toque que o artista dá para suas criações", afirma.

Resgate e conservação

Pensando no futuro, o mestre Luiz Antônio já prepara, no andar de cima de sua loja, a inauguração de um museu com suas obras, que contará com o apoio da prefeitura de Caruaru. "Quando o Vitalino morreu, deixou pouquíssimas peças. Da mesma forma o Zé Caboclo, que o Jackson do Rio, dono da maioria do acervo restante, acabou devolvendo para família em respeito à memória de sua obra. Não quero que o mesmo aconteça comigo, por isso, pretendo inagurar o museu enquanto eu ainda estiver vivo, para que eu possa deixá-lo com a minha cara e rico o suficiente para que possa de fato resgatar tudo aquilo que eu produzi de melhor", explica o artesão.

Recentemente, para alegria dos amantes e apreciadores da arte, o Alto do Moura foi considerado pela Unesco como o Maior Centro de Artes Figurativas da América Latina, o que garante os investimentos e cuidados necessários para a manutenção desta arte viva que pode ser vistas pelas ruas da comunidade. E você visitante, quando visitar Caruaru, não deixe de conhecer o lugar, que proporciona uma verdadeira viagem aos confins da memória e da vida no sertão. Obrigatório.    

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Uma ode à humanidade e suas miudezas

Com direção de Lua Barreto e texto de Millôr Fernandes, Grupo de Teatro Bastet apresenta A história é uma istória e o homem o único animal que ri


Com texto de Millôr Fernandes e direção de Lua Barreto, o Grupo de Teatro Bastet apresenta amanhã, às 21 horas, e domingo, às 20 horas, no Teatro de Bolso Cici Pinheiro, o espetáculo A história é uma istória e o homem o único animal que ri. Trazendo os atores Sandra Santiago e Thiago Moura no elenco, a peça aborda a evolução do homem de forma crítica e reflexiva, derrubando os mitos, questionando os ídolos e ridicularizando os grandes feitos da humanidade através da ótica dos excluídos.

Com a acidez e o sarcasmo que são marca registrada de Millôr, a montagem aposta no poder do ator-narrador, através de sua habilidade em criar sinuosidades e transmutar-se em diferentes personagens. O texto, narrativo e de conteúdo político-filosófico, trata da história do homem desde os primórdios até a atualidade, tocando em temas espinhosos como a corrupção e a crescente alienação da massa.

Trabalhando com diversos níveis de compreensão, o espetáculo alimenta-se da ironia e do sarcasmo do impagável humor milloriano, o que dá ao trabalho seu tom questionador e atual. Com cenário de Daniela Fiuza, figurinos por Elmira Vicente, preparação musical por Maria Angélica Pantarotto e composições por Jorge Beat, o que a peça procura é instigar a platéia a refletir sobre o seu próprio tempo, percebendo o valor das miudezas do cotidiano comum.

SERVIÇO
Espetáculo A história é uma istória e o homem o único animal que ri - Grupo de Teatro Bastet
Quando: Amanhã, às 21 horas; e domingo, às 20 horas
Onde: Teatro de Bolso Cici Pinheiro (Av. Anhanguera, esq. com Rua R-1)
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Informações: (62) 3524-2542

Ruptura medieval no palco do Zabriskie

Inspirado na obra máxima do italiano Giovanni Boccaccio, Decameron explora duas das cem histórias do dramaturgo
 

Com criação e direção colaborativas por Ana Cristina Evangelista e elenco, o Grupo Zabriskie apresenta hoje e amanhã, a partir das 21 horas, no Zabriskie Teatro, o espetáculo Decameron, inspirado na obra do italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375). Escrita em meio a peste negra que assolou a Europa durante a Idade Média, Decameron é considerada a obra máxima do dramaturgo, trazendo uma coleção de cem novelas escritas por Boccaccio entre 1348 e 1353. Além disso, o texto pode ser compreendido como um marco literário na ruptura entre a moral medieval, na qual existia a valorizava do amor espiritual, e o início do realismo, iniciando o registro dos valores terrenos que vieram a redundar no humanismo.

Escrita originalmente em dialeto toscano, a peça conta a história de dez jovens que se recolhem a uma casa de campo para fugir das cidades tomadas pela pandemia que dizimava impiedosamente o continente europeu. Durante dez dias, e apesar da adversidade total que toma conta do recinto, os personagens ainda conseguem celebrar a vida contando histórias de amor em seu refúgio campestre.


Com patrocínio do Prêmio Funarte Myrian Muniz de Teatro, Ana Cristina Evangelista e os atores Alexandre Augusto, Ciça Ribeiro e Natasha Witkowski fizeram uma livre adaptação de duas das cem histórias que se passam neste ínterim: a primeira de como Alibeque faz-se eremita, e o Monge Rústico ensina-lhe como se faz para reenviar o diabo ao inferno; e a outra de como, depois de ter comido certo pó, Ferondo é enterrado como se estivesse morto.


O diálogo com Decameron foi viabilizado por meio do grotesco. A máscara bufa, oriunda da Idade Média, é o espelho deste grotesco, refletindo uma comicidade popular do erro, da insanidade, da desorganização e do caos carnavalesco. "Resgatamos essa festividade caótica para parodiar a sociedade desregrada, fragmentada e tensa em que vivemos hoje. O medo e a insegurança, a solidão, a violência, o misticismo e o refúgio nos extremismos religiosos fazem parte do nosso cotidiano e é sobre ele que voltamos o nosso olhar crítico", explica Ana Cristina Evangelista, que além da direção assina também o figurino.


Com preparação vocal e criação musical por Maria Angélica Pantarotto, cenografia por Edith Lotufo e Pipa Design e fotografia por Layza Vasconcelos e Paulo Rezende, o espetáculo conta com a participação do ator convidado Deidian Lucas. Durante o mês de setembro, a peça ficará em cartaz no Zabriskie Teatro todas as sextas e sábados.


SERVIÇO

Espetáculo Decameron - Grupo Zabriskie
Quando: Hoje e amanhã, às 21 horas
Onde: Zabriskie Teatro ( Rua 148, N° 248 St Marista)
Ingressos: R$20 (inteira). Meia entrada para estudantes, idosos e apresentando na bilheteria qualquer tipo de material de divulgação impresso
Classificação: 16 anos
Informações: (62) 3093-5542 ou www.zabriskie.com.br

sábado, 11 de setembro de 2010

A nova arte do século 21

Ars Electronica, o maior e mais antigo festival de arte midiática do mundo, conta com instalação interativa do artista multimídia goianiense Hugo Camargo 






Maior e mais antigo festival de arte midiática (também conhecida como new media art ou electronic art) do mundo, o Ars Electronica Festival chega este ano à sua 31ª edição com o tema "Repair – Ready to pull the lifeline", ou em bom português, "Reparo - Pronto para puxar a linha da vida", que acontece de 3 a 11 de setembro na cidade de Linz, na Áustria. Apostando na arte sustentável como alternativa ao mundo industrial pós-moderno no qual vivemos, esse ano o evento está sendo realizado pela primeira vez em uma antiga fábrica de tabaco, a Tabakfabrik, um espaço de proporções generosas que guarda em suas características arquitetônicas traços marcantes da industrialização.

Dentre os expositores, encontra-se o artista goianiense Hugo Camargo, 28, que atualmente mora em Viena, na Àustria, onde participa do programa internacional de mestrado "Interface Cultures" (Culturas da Interface), oferecido pela Universität für künstlerische und industrielle Gestaltung Linz (Universidade de Artes e Design Industrial de Linz). Antes disso, Hugo viveu quatro anos em Florença, na Itália, onde se graduou, no ano passado, em "Discipline dello Spettacolo in Arti Visive" (Disciplinas das Artes Visuais e do Espetáculo) pela Libera Accademia di Belle Arti di Firenze (Libera Academia de Belas Artes de Florença).

"Sou um artista multimídia, trabalho com arte eletrônica, arte feita com computador - ou não, mas sempre algo relacionado à condição homem/computador/meio. Recentemente, comecei a me aventurar também no campo da curadoria e da preservação de arte realizada com novas mídias (new media art). Minha pesquisa artística se concentra principalmente nos terrenos da arqueologia midiática e instalações interativas", explica o artista.

Na Ars Electronica 2010, Hugo integra a exibição "Playful Interface Cultures" (algo como Jogando/Brincando com a Cultura de Interface), com curadoria do experiente pesquisador Georg Russegger, diretor do mestrado "Ludic Interfaces" (Interfaces Lúdicas) da Universidade de Artes e Design Industrial de Linz. Segundo Hugo, o termo "playful", que também significa lúdico, sugere como ver as coisas por uma perspectiva diferente, e não necessariamente a ideia de jogo que a tradução literal nos proporciona. "Um novo olhar, mais impregnado de ludicidade nas relações homem/máquina/sociedade é o foco maior da exibição", explica.

Arte através de um telefone celular

A obra assinada por Hugo, realizada com a colaboração da artista austríaca Veronika Pauser, foi batizada de "Mohr SMS", e consiste numa instalação interativa onde a tela de um telefone celular é usada como tela de um quadro para produzir arte generativa. Com raízes na arte conceitual, a arte generativa trabalha a construção de um objeto/sistema apoiado em mecanismos parcialmente exteriores ao artista que, com alguma autonomia, geram trabalhos segundo regras instauradas pelo autor. Ou seja, o artista cede a função de exercer a construção do objeto e decide-se por uma passagem para um meta-nível onde cria um conjunto de instruções.

A instalação em questão se resume a um telefone celular conectado a uma tela de LCD emoldurada e um sinal onde se fornece o número do telefone. Dessa forma, "Mohr SMS" permite que as pessoas adicionem elementos gráficos em tempo real através de mensagens de texto, que assim que enviadas são decodificadas através de algoritmos que as traduzem em traços que percorrem seus caminhos dentro da tela até formar um emaranhado de linhas de diferentes tamanhos e espessuras.

O resultado, embora possa parecer, nunca é randômico: cada mensagem corresponde a um determinado algoritmo, onde características como a utilização de espacos, tamanho das palavras e utilização de pontuação determinam o resultado visual de cada mensagem de texto.

A mesma mensagem gera sempre o mesmo algoritmo e, consequentemente, a mesma imagem na tela. A cada 10 mensagens, a tela volta ao seu estado inicial, permitindo que outra imagem possa ser construída. As obras anteriores são armazenadas para posteriormente serem disponibilizadas no website oficial da instalação (www.mohrsms.com).

A arte generativa de Manfred Mohr
 
Hugo explica que o algoritmo é baseado na obra de Manfred Mohr, artista alemão que foi um dos pioneiros da arte generativa no mundo. "Esteticamente, Mohr SMS presta homenagem a obra "P18" de Manfred Mohr, de 1969. Manfred Mohr escreveu algoritmos que, uma vez no computador, produziam imagens sem nenhuma intervenção humana, dando à máquina uma autonomia nunca antes vista no mundo da arte. Mohr SMS repropõe a arte generativa adicionando o fator interatividade. De uma forma simples, onde se pode participar com qualquer tipo de telefone celular (independente da tecnologia de cada celular), o espectador é parte essencial da obra, que consiste principalmente no algoritmo aliado à interação. Uma espécie de pintura virtual coletiva onde a obra não é completa sem a interação do espectador", explica o brasileiro.

Isso porque, sem mensagens de texto enviadas, a tela permanece branca, como um quadro a se fazer. Daí o nome da obra, uma alusão ao pioneiro da arte generativa, Manfred Mohr, e também um trocadilho com o fato de que, para existir, a obra de arte precisa da interação do espectador, precisa de mais mensagens de texto ("more sms").

Obra premiada


A obra tem tido uma ótima recepção durante o Ars Electronica 2010, tendo recebido o 2º lugar do Prêmio da Crítica dentro da exibição Playful Interface Cultures. Além disso, Hugo acaba de ser selecionado para um festival em Istambul, na Turquia, em novembro, e já está negociando exposições pela Europa e Estados Unidos.

Até agora, o artista goianiense já teve seus trabalhos expostos no "Athens Video Art Festival 2007", em Atenas, na Grécia; "Networking Eyes 2007", em Florença, na Itália;  "NewMediaFest [Slowtime 2007 - Quicktime as an artistic medium]" que foi exposto virtualmente no website do festival e fisicamente em diversos países, como Alemanha, Portugal, Argentina, Sérvia, Índia e Espanha; "Rassegna Giovani Artisti 2008", exibição na qual participaram apenas trabalhos de artistas localizados na região Toscana italiana (Capraia, Itália); e "Tools for Revolution or Just for Sale" (Ferramentas para Revolução ou Apenas Para a Venda) em 2009, também em Florença, na Itália.

Indagado sobre a vontade de expôr no Brasil, Hugo afirma achar até curioso o fato de já haver exposto em tantos lugares do mundo em tão pouco tempo e ainda não ter rolado no Brasil, mas revela que possui planos de trazer sua arte para a terra pátria. "Estou planejando uma mostra para Goiânia como curador, e terá um trabalho meu nela. Talvez o fato de eu morar fora tenha me distanciado um pouco da cena local, já que perdi os contatos com curadores e artistas de Goiânia. Porém, penso que promover algo no campo de artes com novas mídias pode abrir caminhos não só para mim, mas para vários outros artistas locais com uma produção que foge um pouco da arte convencional já feita na cidade", adianta.

Para conhecer mais sobre o artista, acesse www.hugocamargo.com.

Mistura musical para ouvir e sentir


Desde o início da carreira, há cerca de 15 anos, o Jaga Jazzist tornou-se um fenômeno musical na Noruega, baseando sua cozinha sonora em um nu-jazz bem experimental com pitadas de post rock e música eletrônica. Seu estilo poderia ser definido como uma mistura de ícones do avant-garde jazz, como Charles Mingus, John Coltrane e The Soft Machine, com a sonoridade das bandas experimentais contemporâneas, como Stereolab, The Cinematic Orchestra e Tortoise.

Formado pelos irmãos Horntveth, o grupo começou mais influenciado pela música eletrônica, e contava inicialmente com apenas três integrantes. Do som quase todo digital, evoluíram ao longo dos anos ao incorporarem também elementos do post rock e do jazz, adicionando ao som eletrônico instrumentos como tuba, saxofone, piano, trompete, guitarra e baixo. Dessa forma, a banda cresceu e atualmente é composta por nove músicos, quase todos envolvidos em outros projetos e empreitadas solo. Bastante particular, a sonoridade do grupo propõe uma mistura dicotômica entre o jazz analógico e o eletrônico, entre a música erudita e o post rock.

Embora longe do ineditismo de alguns álbuns anteriores, One-Armed Bandit, lançado este ano, inspira uma viagem profunda, daquelas de fechar os olhos e deixar a música tomar as rédeas. Talvez resultado da batida hipnótica, talvez apenas um efeito da candura da sonoridade instrumental, que por vezes remete ao embalo das trilhas sonoras. Destaque para a música Toccata, na qual piano e sintetizador criam essa viagem intensa, de tensão e redenção. Música para ouvir, mas mais que isso, para sentir.

A música de brinquedo do Pato Fu


Criada em 1992 em Belo Horizonte, Minas Gerais,  Patu Fu sempre foi uma banda diferente, sem medo de brincar com sua própria formação e de se aventurar por novos terrenos conceituais e sonoros. Prova disso é o novo disco do grupo, lançado recentemente sob o título de Música de Brinquedo: gravado inteiramente com instrumentos de brinquedo, o álbum relembra grandes sucessos da música mundial com uma roupagem impregnada de um lirismo doce e da suavidade típica da infância. Entre os sucessos repaginados estão Todos Estão Surdos, Pelo Interfone, Sonífera Ilha, Rock and Roll Lullaby, My Girl e Love Me Tender. 

Se no repertório não há nenhuma novidade, não pense que se trata de uma fase pouco criativa na família Takai. Pelo contrário. Apelando diretamente para a memória afetiva dos ouvintes, o grupo escolheu o time de canções à dedo, confirma explica o guitarrista e produtor da banda, John Ulhoa: "Estamos acostumados a ir juntando material inédito, novas composições, letras, melodias soltas ao longo de uma turnê, pra gerar um disco novo ao final. Isso nunca parou, e de fato temos um tanto de material que poderia ser justamente o ponto de partida para um novo álbum de inéditas. Mas esses arranjos de brinquedo teriam um efeito muito mais potente se aplicados a canções conhecidas. Aí é que estava a graça: colar essa sonoridade em clássicos do pop, recriar todas as frases melódicas de músicas que não fossem só conhecidas, mas que tivessem arranjos emblemáticos. O que procuramos é o prazer de ouvir velhas canções adultas em seus arranjos originais, tirados praticamente nota por nota, só que com instrumentos de brinquedo", conta.

Outro detalhe interessante e encantador são as vozes infantis, presentes em quase todas as músicas do registro. O coro, feito por Nina Ulhoa, filha de Fernanda e John, e Matheus D'Alessandro, amigo dela da escola, ambos com 6 anos, trouxe um sopro de espontaneidade e sinceridade ao disco, sem, contudo, deixar o trabalho com cara de disco infantil. "Não queríamos aquela sonoridade “coral de crianças”, e sim pequenas participações, marcantes e carregadas da inocência e desafinação pura de espírito que só as crianças conseguem. Acho que conseguimos, e foi um aprendizado e tanto", afirma John.

Em entrevista que você confere a seguir, John falou um pouco sobre a motivação que os levou a encampar o projeto, as dificuldades na captação de som dos brinquedos e os planos para o próximo semestre. Confira:
  
Como e quando surgiu a ideia de utilizar os instrumentos de brinquedo para gravar um disco?

John Ulhoa - Ouvimos algo parecido com isso há muito tempo, em 1996. Era um disco da série Classiks On Toys, com músicas do Beatles tocados em instrumentos de brinquedo pela turma do Snoopy e Charlie Brown. Mais recentemente, com a chegada dos filhos, brinquedos musicais passaram a frequentar nossas casas. E, aos poucos, começamos a testá-los em estúdio. Logo percebemos que era possível gravar tudo somente com eles e a ideia nos pareceu tentadora demais para ser deixada de lado.
Foi complicada a adaptação dos frágeis instrumentos de brinquedo às necessidades sonoras da gravação? Qual foi o maior desafio?

John Ulhoa - Eles são difíceis de serem tocados - pelas suas dimensões, difíceis de serem combinadas - pela afinação vacilante da maioria, e pela facilidade de quebrar. Além disso, quase nenhum tem escalas completas, o que fazia com que juntássemos três ou quatro "glockenspiels" de latão diferentes para obter a melodia que queríamos. Mas tudo isso era compensado pelo fato de o que buscávamos não era uma sonoridade perfeita e sim aquele clima de brinquedo, e as imperfeições fazem parte dele.
 
Como foi a escolha do repertório?

John Ulhoa - Buscamos coisas de nossa memória afetiva... e canções que tivessem algo na parte instrumental que fosse bem marcante: uma introdução, um solo... Queríamos que fossem não só músicas conhecidas, mas que os arranjos fossem conhecidos. E foi também intencional a inclusão de músicas em outros idiomas, pra tornar a coisa ainda mais universal.
 
Como foi o clima de comandar as crianças? Rolou em ritmo de festa ou teve momentos de seriedade?

John Ulhoa - Foi só brincadeira. Nade de tentar cantar afinadinho, não queríamos aquela sonoridade de "coral infantil". Elas eram apresentadas às músicas na hora, microfone o tempo todo ligado e elas cantando do jeito mais espontâneo possível. E sempre rápido, pra não cansar. Ficavam ali durante uma hora, depois iam brincar de outra coisa. E fizeram isso umas três vezes só.
 
A turnê do disco será feita com os próprios instrumentos de brinquedo? Como será a adaptação para os shows?

John Ulhoa - Sim, incluiremos canções do Pato Fu, mas também com os brinquedos. Nos shows utilizamos os mais "tocáveis", os que resistem um pouco mais e possam ser um pouco mais versáteis. E temos mais pessoas para tocá-los, por isso, não usaremos nada pré-gravado. Foi uma pesquisa grande para saber como captar o som de cada um, é um quebra-cabeça técnico, mas funcionou muito bem.

Quais são os planos para o próximo semestre?


John Ulhoa - Faremos o máximo possível de shows dessa turnê, e começaremos a pensar num DVD que registre tudo isso!