sábado, 1 de maio de 2010

Mesiversário

Hoje a coluna de música do DMRevista tá fazendo um mês na minha mão.

Olha lá o que já saiu:
 

Congresso perde sua musa

Cansada do preconceito, a única transexual do Legislativo anuncia exílio na Europa para confecção de um livro, cuja temática deverá ser a sexualidade humana


Quem avista pela primeira vez a loiríssima Maria Eduarda Borges perambulando pelos corredores do Congresso Nacional, em Brasília, exalando uma feminilidade de fazer inveja a qualquer diva e atraindo os olhares travessos dos parlamentares da casa, não imagina que há menos de três anos a beldade atendia pelo nome de João Paulo e se escondia atrás da imagem sisuda de um dos mais respeitáveis e requisitados assessores legislativos da Casa. A transformação física da transexual, que desde criança já ostenta sensibilidade e características típicas do universo feminino, começou em 2007, quando, após retornar de uma Parada Gay em Salvador, decidiu de uma vez por todas abandonar a aparência bem comportada do garoto tímido para assumir o visual de mulher fatal, mais condizente com sua essência e personalidade. Além de tratamento hormonal e acompanhamento psicológico, a mudança incluiu prótese de silicone nos seios, cirurgia nas cordas vocais e plástica no rosto para suavizar algumas expressões masculinas, transformações que mudaram radicalmente a rotina pessoal e profissional desta goiana, natural de Mozarlândia, que há cerca de dez anos já reside na Capital Federal e atua no Legislativo.

No Congresso, a nova aparência de Maria Eduarda colocou-a imediatamente no centro absoluto das atenções, despertando a ira das mulheres, que começaram a vê-la como uma concorrente em potencial, e o desejo dos homens, que não exitavam em entortar os pescoços para admirar a nova mulher que surgia. Porém, assim como tudo que é diferente acaba causando estranheza, a nova condição da assessora não passou ilesa ao preconceito, ainda que velado, dos frequentadores e membros da Casa Legislativa. Na entrevista que você confere agora, concedida ao DMRevista, a musa falou dos problemas que enfrentou nesta fase de transição e de sua decisão, anunciada recentemente, de exilar-se na Europa, onde pretende conviver com outra cultura e escrever um livro sobre sexualidade. 


DMRevista - Com que idade surgiu a compreensão de que sua alma e essência eram femininas? Sofreu discriminação por parte da família?


Maria Eduarda - Aos cinco anos de idade eu assistia o Xou da Xuxa e visualizava a feminilidade dela e das Paquitas e aquilo me encantava. Depois disso, comecei a usar roupas da minha mãe as escondidas, e a partir daí tudo foi consequência.

Por parte de meus entes familiares, nunca foi recriminada nem enfrentei preconceito, mas possivelmente eles sofreram por parte de outras pessoas com quem conviviam. Quanto à discriminação, veio como resultado da diferença. E como sempre fui diferente daqueles com quem convivia, ela foi inevitável. Até porque preconceito é um conceito pré-formado quando, infelizmente, as pessoas julgam precipitadamente no lugar de tentarem entender.


DMRevista - E depois de adulta? O que impulsionou a sua transformação? O que te deu coragem?


Maria Eduarda - Descobri que eu tinha atração pelo homem hetero.  Eu queria que ele me enxergasse como mulher, mas como meu físico não condizia com meu pensamento decidi começar minha transformação. Certo dia eu estava com um rapaz que só ficava comigo pelo lado financeiro, até que, passando por uma travesti, observei o quanto ele se encantou por aquela imagem. Foi aí que percebi que ficar com homem hetero de forma plena só seria possível quando também me tornasse feminina.
DMRevista - O que mudou no seu trabalho no Congresso depois da transformação? Sofreu preconceito?


Maria Eduarda - A mudança mais significativa no trabalho foi o foco que se formou em torno da minha “figura feminina”. Não existia mais naturalidade de olhares e comentários, mais parecia um Big Brother do Congresso, onde as câmeras estavam todas voltadas para mim. Seria possível imaginar alguém sair do anonimato e se tornar o centro das atenções sem preconceito? Claro que ele veio atrelado a tudo isso. E o preconceito velado, que é ainda pior. Antes as mulheres me adoravam por ser um homossexual, quando todos sabem que uma mulher sempre tem um amigo gay. Hoje me tornei rival, sendo que não nutro qualquer rivalidade com as mulheres, muito pelo contrário. Já com os homens, quando eu era gay, muitos nem falavam comigo. Havia uma espécie de repulsa. Hoje, os mesmos que agiam assim me adoram, tratam-me como uma grande atração! Percebi então que o que importa para os homens é o visual.

DMRevista - Sobre a mudança oficial de nome, o que está impedindo a ação de se concretizar? 


Maria Eduarda - Infelizmente no Brasil a Justiça, todos sabem, é lenta e neste caso pior ainda. Estou aguardando, ainda, o julgamento na primeira instância do meu pedido. O pior para mim é o constrangimento ao apresentar um documento com nome masculino, sendo eu absolutamente feminina. Certo dia, por exemplo, embarcando no Aeroporto de Congonhas, o despachante durante o check-in simplesmente chamou a Polícia Federal por considerar que eu estava usando de falsidade ideológica. Ao Delegado que me inquiriu, alertei que a única maneira de provar que eu era eu mesma seria fazendo exame de sangue para identificar que meus cromossomos eram XY. Talvez, no meu caso, eles fossem mesmo XX (risos)!

DMRevista - Atualmente, quais são as funções desempenhadas por você no Congresso?


Maria Eduarda - Sempre atuei dentro do Legislativo, elaborando projetos e outras proposições. Fico envaidecida ao dizer que meu trabalho resultou na promulgação de mais de 50 leis e de três emendas constitucionais. Por exemplo, as cinco Leis do falecido deputado federal Clodovil Hernandez, foram elaboradas por mim. E isso é um orgulho!

Entretanto, decidi que já prestei muita contribuição ao meu País! Agora quero, e mereço prestar mais dedicação a mim. Por isso, vou mudar e passar uma temporada na Itália, de onde pretendo conhecer as maravilhas da Europa e também aprimorar-me em outras áreas da cultura.


DMRevista - Que mudanças você espera a partir disso? Na Europa o preconceito é menor ou essa mudança simboliza apenas uma mudança de radical de realidade? Quanto tempo pretende passar lá? Quais são os planos para os próximos meses?


Maria Eduarda - Aprimorar minha educação e cultura, aprender outro idioma e estabelecer novas amizades, esses são meus planos. Todos sabem que na Europa o preconceito em relação à sexualidade humana é muito menor, senão inexistente. Quanto ao tempo de permanência no exterior, não sei. Quero ir para viver bem e ser feliz, se durar dois meses, ou dois anos, só Deus sabe.


DMRevista - Sobre o livro que você vai escrever, poderia nos contar um pouquinho?


Maria Eduarda - Minha temporada na Europa será voltada para isso. Longe do meu ambiente natural, quero refletir e ver o que posso dividir com as pessoas. Assim, se antes eu ajudava contribuindo na elaboração de leis que dessem mais qualidade de vida aos cidadãos, agora quero ajudá-los a viver melhor, mexendo com o consciente deles. Por enquanto, penso num tema em torno da redefinição da sexualidade humana, porque a cada dia vejo não existir mais tendência sexual: a gente não gosta do homem ou da mulher, a gente gosta é de pessoas. E quando todos descobrirem que essa é a realidade, o preconceito acabará.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Confusão em torno de show estrangeiro

Organizadores do evento Abba - The Show esclarecem polêmica: não se trata de revival da banda sueca e sim de apresentação com dois músicos de apoio da primeira formação do Abba
 Um mal entendido tem deixado fãs e admiradores da banda sueca Abba, que encerrou suas atividades em 1982, afoitos. Trata-se do Abba - The Show, estampado em diversos muros e fachadas da Capital, que se apresenta em Goiânia no próximo dia 13, no Sol Music Hall. Porém, ao contrário do que muitos pensam, não se trata de um revival do quarteto formado por Agnetha Fältskog, Benny Andersson, Björn Ulvaeus e Anni-Frid Lyngstad. Segundo os organizadores Rafael Moraes e Maikell Rosa, o que sobe ao palco goiano é um grupo “cover” chamado Waterloo (homenagem ao disco homônimo de 1974), que conta com a participação dos músicos Ulf Andersson e Janne Schaffer, respectivamente saxofonista e guitarrista originais da primeira formação da banda.

Com estreia mundial no Royal Albert Hall, de Londres, o musical Abba - The Show é considerado a mostra mais autêntica do grupo sueco até agora, tendo sido inclusive reconhecida pelos membros originais, Bjorn, Benny, Agnetha e Anni, além de obter o licenciamento de seus produtores oficiais. A apresentação em Goiânia traz ainda, com exclusividade, a participação de dez integrantes da National Symphony Orchestra de Londres, que, sob a regência do maestro Matthew Freeman, apresentarão canções clássicas que colocaram todo mundo para dançar nas pistas das discotecas dos anos 70, como Waterloo, SOS, Mamma Mia, Dancing Queen, Money Money Money, Knowing Me Knowing You e Rock Me.
 
Com uma megaestrutura de iluminação, imagem e som, Abba - The Show já acumula sucesso fenomenal em todo o mundo, alcançando recordes de bilheterias em países como Estados Unidos, Canadá, Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, Alemanha, Áustria, Suíça, Inglaterra, Itália e Japão. Pela primeira vez na América do Sul, o grupo tem apresentações agendadas para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Goiânia.

Foto: Ulf Andersson e Janne Schaffer, únicos músicos remanescentes do Abba original a se apresentarem em Goiânia.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Beco transformado em arte

Com o objetivo de revitalizar este espaço tão importante que é o beco, o Festival de Arte Urbana traz oficinas, desfiles e apresentações musicais e teatrais  


A primeira coisa que vem à cabeça quando se trata de beco é um lugar sujo, mal frequentado, feio e abandonado. Na maioria das vezes, esse esteriótipo não foge mesmo à realidade, porém, o que muita gente não sabe é que esses espaços, tão abundantes na cidade de Goiânia, carregam traços arquitetônicos e intervenções artísticas importantes da história da Capital, configurando-se como um relevante espaço de socialização, resgate das raízes e escambo cultural. Foi pensando nisso que surgiu o Festival de Arte Urbana – Beco d'Arte, que busca resgatar esses pontos da cidade, pouco contemplados pela sociedade, onde o processo de urbanização conseguiu criar forte expressão artística e representação cultural.

A primeira edição será realizada amanhã, a partir das 14 horas, no Beco da Rua 8, no Centro, e contará com desfiles de moda, música, exposição de fotografia e artes plásticas e oficinas de arte, tudo acontecendo ao mesmo tempo e com entrada franca. Trabalhos de mais de quinze artistas plásticos, seis designers de moda, exposição fotográfica de diversos pontos de Goiânia (evidenciando os locais onde a arte urbana é mais expressiva e menos apreciada), além de performances dos grupos participantes do Festival Nacional de Teatro, farão parte do evento, que tem o Apoio da Prefeitura Municipal de Goiânia, Cia Oops de Teatro e Pavio Soluções Filosóficas.

"Quando iniciamos a concepção de um festival voltado para o espaço do Beco, a pergunta norteadora foi: qual a melhor maneira de revitalizar um local com essas características? A resposta veio em uníssono: injetando-lhe a nova arte urbana da Capital, oras! Arte urbana é isso, pluralidade, vibração e presença em qualquer lugar", afirmou o organizador do evendo, Kaio Bruno.

Dentre os destaques do festival, está a artista plástica Luciana Faria, autodidata em desenho e pintura até os 17 anos e acadêmica do curso de Design Gráfico da UFG. A jovem já acumula um currículo de duas exposições, uma no Hard Night, festival de música realizado no DCE da PUC, e outra no Sarau de Literatura Letra Livre, promovido no Centro Cultural Goiânia Ouro. No Festival de Arte Urbana, Luciana ministrará duas oficinas - pintura e desenho - voltadas para público infanto-juvenil, além disso de expor, a partir das 16 horas, alguns de seus trabalhos.

Outro destaque é a designer de moda Naya Violeta, que apresentará ao público o desfile da coleção “Leite de Trevo”, inpirada no caos urbano com algumas pitadas do cerrado brasileiro. "Intervir, no meio do barulho do trânsito, permitir-se tocar, entrar, fazer parte, misturando elementos de superstição, trelelês da cabeça e no coração monogramas em bordados e desenhos. A coleção se divide em partes, e coloca o público no meio dessa contradição, interagindo com o tecido, permitindo a ele expressar-se como construção para a criação. As influências do cerrado brasileiro se misturam com crescimento de um povo que vive em becos, barracos, buracos, e diversos lugares e espaços", explica a estilista. 

O evento também é fruto de uma parceria com as lojas Cherryland, Lady Hanna, Fabulosas Desordens e Boca de Porco, que durante o festival estarão expondo as últimas novidades da moda alternativa.


SERVIÇO

Festival de Arte Urbana – Beco d’Arte
Quando: Amanhã, dia 24 de abril
Hórario: a partir das 16 horas
Local: Beco da Rua 8, Centro
Entrada franca

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Expressão através da colagem

Detentor de um talento surpreendente, o goiano João Colagem retorna ao Brasil para exposição de uma súmula do trabalho desenvolvido por ele nos últimos 12 anos em que residiu na Holanda
 

Goiano nascido em Trindade, autodidata e pesquisador das possibilidades que a celulose oferece para a criação um novo universo visual, o artista plástico João Colagem apresenta nesta sexta, a partir das 20 horas, no Adress Hotel, a exposição Ímpar, que reúne os trabalhos realizados nos últimos anos em seu ateliê em Roterdã, na Holanda, onde reside desde 1997. Lá, o artista desenvolve pesquisas e trabalhos embasados na história da arte e da cultura holandesa, já tendo participado de diversas exposições e premiações de relevância mundial. Seu regresso à Goiânia deveu-se ao convite do ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de Goiás (Sectec), Joel Sant'Anna Braga Filho, e da produtora cultural Kátia Barreto, que fizeram questão de sua presença no lançamento do livro Telas da Alma II - Pincéis que tocam Goiás, do escritor Alysson Assunção. Aproveitando a estada, o artista realizou exposição individual no evento de inauguração da galeria de arte do Teatro-Escola Basileu França e da abertura da temporada artística da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás.

Para a noite desta sexta, João preparou muitas surpresas e novidades para os apreciadores de seu trabalho. "A partir das 8 horas, eu e a Kátia Barreto estaremos recepcionando os convidados, e por volta das 8h30 daremos início a uma surpresa especial para nossos visitantes. Preparem-se", adiantou o artista.

Em entrevista ao DMRevista, João falou da obra na qual está envolvido há cerca de cinco anos, concebida como uma tríade, formada pelos braços esquerdo e direito e por um eixo central, que simboliza o proprio âmago de seu autor. "O projeto Resgate da Memória Perdida é considerado o braço direito, e consiste em uma série de oficinas de arte e colagem voltada para crianças, adolescentes e arte-educadores. Iniciado em 2006, o trabalho concretiza a proposta de intercâmbio cultural com artistas holandeses e tem como foco o despertar criativo e a estimulação da dinamização intelectual dos jovens para expressão individual ou coletiva", explica o artista, que em 2008 realizou a primeira mostra deste projeto na Câmara Municipal de Trindade. Programada para durar quatro semanas, a exposição precisou ser prorrogada devido à enorme visitação. "Conseguimos trazer 200 crianças para o projeto, e com a primeira mostra, que teve mais de 1500 visitantes, ficou clara a aceitação e o interesse despertados na comunidade", comentou.

Já o braço esquerdo foi iniciado ainda em 2005, tendo como principal objetivo agregar valores visuais diferenciados através da troca intelectual e criativa de diversos artistas. Batizado de Colagem Coletiva, o projeto reuniu os holandeses Gerald de Bruin, Michele van Dijk e Annet Scholten, que juntos embarcaram com João no desafio da busca pela inserção de diversas linguagens e visões em um único corpo, unindo valores por uma ação essencialmente coletiva. "Me admirei com o dinamismo, organização, disciplina, pontualidade e interesse pelo coletivo presentes nos artistas holandeses com os quais trabalhei. E estes são aspectos profissionais que abrangem e engrandecem as diversas linguagens no segmento das técnicas de colagem, como animação, ilustração e instalação. Atualmente, a Colagem Coletiva já conta com currículo internacional, entrando agora em sua 8ª edição com participação de goianos como Alana Morais, Wemerson Dhamasceno, The Alves e André Bragança. Já recebemos a proposta de um galerista para execução de uma mostra internacional que se transformará em um grande festival de colagem em Roterdã", adianta João.

Enquanto os braços direito e esquerdo se focam no social, humanitário e coletivo, o eixo central é o própria essência de João Colagem, aliando a percepção funcional na execução das mostras com a estabilidade de sua pessoa enquanto artista. "O eixo central é a minha fé, minha cosmovisão e concepção de mundo. Adquiri, com o passar dos anos, o entendimento de que os canais de interpretação podem passar pelo racional, intelectual e emocional no momento de captação de ideias que fluem do universo criativo. Dessa forma, a mostra Ímpar não é individualista, mas sim uma partícula que integra o todo. Não é estagnação, pelo contrário, consiste na associação para um bem que é coletivo, na singularidade de cada componente deste coletivo", afirma.

O acervo da mostra vem sendo trazido ao Brasil há cerca de cinco anos, e atualmente já conta com cerca de 40 obras calcadas em diversas linguagens visuais. "Os trabalhos foram escolhidos explicitamente para mostrar ao público brasileiro o processo pluralista das composições, dando ao espectador a possibilidade de ver, sentir e comparar o salto que a técnica agregou à minha trajetória nos últimos 12 anos", comentou.   

Após a mostra, realizada exclusivamente na noite do dia 23, o artista retorna para a Holanda para a execução de algumas xposições, porém, as obras expostas serão deixadas aos cuidados de Kátia Barreto, que representa oficialmente o nome de João Colagem em Goiás. Sua ausência de 12 anos criou um filão de mercado, aumentando a demanda por seus trabalhos, motivo pelo qual muitas das obras da mostra já terem sido comercializadas antes mesmo de sua inauguração. Quem tiver interesse em conhecer o trabalho do artista ou adquirir uma de suas obras pode entrar em contato com Kátia pelo fone 9611-3762.

O novo site do artista (www.colagem.com) já está disponível para visitação, porém, somente na língua holandesa. "Em breve estaremos lançando o site em inglês e português, mas enquanto isso não acontece, os brasileiros podem conhecer meu portfólio através do endereço virtual", afirmou.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Quanto mais Trash, melhor

Voltado para um cinema espontâneo e sem frescura, o mais divertido evento goiano do audiovisual chega à sua 5ª edição trazendo convidados de peso para suas mostras, oficinas e debates


Começa hoje, com abertura as 19h30, no Centro Cultural Goiânia Ouro, a Trash - 5ª Mostra Goiana de Filmes Independentes, promovida pela Monstro Discos com curadoria de Márcio Jr. e Márcia Deretti. A mostra, que acontece de 15 a 18 de abril, fará a exibição de filmes de diversos formatos para promover a produção alternativa e de baixo custo, proporcionando um espaço para discussão e reflexão de quem de alguma forma colabora ou simpatiza com esse meio. Realizado desde 1999, o evento consolidou-se como um dos mais importantes espaços destinados à veiculção de filmes deste segmento, e este ano traz novidades como a participação do capixaba Rodrigo Aragão, audacioso realizador do longa “Mangue Negro”, que abrirá o festival.

Diretor de filmes como Chupa Cabras e Peixe Podre, Aragão também ministrará a oficina “Maquiagem para Filmes de Terror”, cujo resultado poderá ser conferido na 2ª Zombie Walk Goiânia, a passeata de zumbis que encerra a mostra, no domingo. Com carga horária de 12 horas, o minicurso introduzirá noções sobre a história da maquiagem, conhecimento de materiais, produção de pigmentos, fabricação de sangue, maquiagem de duas e três dimensões, além de trasformação através de massa moldável e construção conceitual e física de personagens.

A Trash deste ano também contará com a participação de outro convidado ilustre: o cineasta carioca Christian Caselli. Conhecido nacionalmente por filmes independentes de baixíssimo orçamento e alto grau de invenção, Caselli terá uma retrospectiva de sua obra apresentada na Trash em duas sessões, uma na sexta, às 22h, e outra no domingo, às 17h.

Além disso, estará à frente da oficina “Realismo Falcatrua" que, assim como a de maquiagem, tem vagas limitadas e é gratuita. Tendo como único requisito possuir um celular com câmera, o estudo abordará a expressão audiovisual através deste tipo de material, aproveitando a "má qualidade" proporcionada pelas câmeras de celular como estilo e dando um toque de realidade ao material produzido. 

Jairo Ferreira e o Cinema de Invenção

Nesta 5ª edição, a Trash presta homenagem ao mais poético e anárquico pensador, crítico e autor do cinema brasileiro, o paulistano Jairo Ferreira. Com curadoria do produtor Paulo Sacramento (foto), um dos maiores especialistas em sua obra, a Mostra Jairo Ferreira terá início às 17h do sábado e exibirá os filmes "O Guru e os Guris", "Nem Verdade Nem Mentira", "Horror Palace Hotel" e "Metamorfose Ambulante ou As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thoth".

Para discutir o Cinema de Invenção de Jairo Ferreira, além de Paulo Sacramento, a mesa redonda contará com a presença do legendário cineasta da Boca do Lixo, Carlos Reichenbach. Dois de seus longas mais emblemáticos serão exibidos durante o festival: Filme Demência, de 1985, e Garotas do ABC, de 2004. Jairo e Reichenbach foram parceiros em diversas produções cinematográficas, inventiva e marginalmente.

Destaque goiano

De caráter não-competitivo, a mostra exibirá 109 obras, sendo 11 de produção goiana, 96 de outros Estados (Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, Rondônia, Ceará, Alagoas, Distrito Federal, Minas Gerais e São Paulo) e duas de outros países (Espanha e Estados Unidos/Argentina). Pela pluralidade de temas e atividades, a organização do evento espera a participação de cerca de cinco mil pessoas no decorrer do festival. 

Dentre os curtas goianos, o destaque é para a estréia de “O demônio veio do céu”, direção coletiva que será apresentada na quinta, 23h. Com cenas gravadas em vários pontos da cidade, entre eles o Cemitério Santana, o curta apresenta um registro da visita de José Mojica Marins à Goiânia em 2001 por ocasião da divulgação de “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”. O documentário é dedicado à memória do saudoso crítico e cineasta goiano Beto Leão, que participou da equipe de produção, fazendo a consultoria e as entrevistas com o criador do personagem mais relevante do imaginário cinematográfico brasileiro.

SERVIÇO

TRASH – 5ª Mostra Goiana de Filmes Independentes
15 a 18 de abril - Centro Cultural Goiânia Ouro
Rua 03, esquina com Rua 09, nº 1016, Centro
Entrada: 1 kg de alimento não perecível
Impróprio para menores de 18 anos

quarta-feira, 14 de abril de 2010

História de Goiás em novos trilhos

Em seu novo livro, Poder e Paixão, Lena Castello Branco desmistifica a trajetória dos Caiado, lançando nova luz sobre a história do Estado e sacudindo a poeira das tradições


"A recomposição do passado, sob a forma de memória histórica, resulta de um complexo processo de negociação entre presente e passado." É com estas palavras que Noé Freire Sandes, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás (UFG), abre a apresentação de Poder e paixão - A saga dos Caiado, novo livro da historiadora Lena Castello Branco que acaba de sair pela Cânone Editorial. Em dois graúdos volumes, que enfeixam mais de mil páginas, a publicação é resultado de criteriosa e profunda pesquisa bibliográfica e documental, que levou cerca de doze anos para ser concluída e contou com dezenas de entrevistas, depoimentos e documentos inéditos.

A abertura de Noé resume bem o objetivo de tão aprofundado estudo: mais do que reafirmar a história já perpetuada e reproduzida maquinal e incansávelmente durante o último século, a obra visa uma reinterpretação de fatos e o questionamento de algumas verdades tidas como absolutas, lançando nova luz e desmistificando aspectos obscuros da história de Goiás.

"Preocupei-me em dar voz aos silenciados, sobretudo aos derrotados pela Revolução de 1930 - os chamados 'decaídos' - impedidos de se manifestar por longo período. Ao dar início à elaboração de Poder e paixão, deparei-me com a forte representação negativa da família Caiado, que, disseminada no imaginário popular, contaminou o próprio sobrenome. Optando pela história-problema - que permite apreender o indivíduo em interação com a sociedade - entrevi, nesse fato, o fulcro dos questionamentos para os quais buscaria resposta: como e por que se deu a demonização dos Caiado?" introduz Lena, deixando claro que a publicação não pretende vir em defesa de ninguém, mas sim deixar de lado a visão conformista em busca de versões mais condizentes com a realidade histórica. 

Custeado pela Agepel mediante autorização de sua presidente, Linda Monteiro, e do Governador Alcides Rodrigues, o livro aborda também questões como o coronelismo, a Coluna Prestes, as revoluções e sediações em Goiás e no Brasil durante a Velha República, entre outros aspectos da história do país  

História de Goiás sob nova luz

Partindo do esgotamento das minas, ainda no século XVIII, o estudo tem como marco inicial a vinda de Manoel Cayado de Souza de Portugal para a Vila Boa, onde, em 1770, obteve concessão de uma sesmaria nas matas da Paciência. Documentos históricos inéditos foram percorridos no Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade de Goiás, Brasília e Goiânia, com destaque para o rico acervo da família Caiado, que se encontrava distribuído entre diversas mãos. Além disso, a autora visitou a aldeia ancestral da família em Caria, Portugal, onde teve acesso a valiosa documentação escrita e iconográfica relativa ao tema.

Com narrativa envolvente e rica, a obra realiza um resgate completo e detalhado de Goiás naquele tempo, abordando o desbravamento do sertão e a transição para as atividades agro-pastoris, no século XIX, bem como a participação dos goianos na Guerra do Paraguai e na campanha abolicionista. No século XX, privilegia a análise das lideranças políticas da Velha República, com destaque para a personalidade de Antônio (Totó) Ramos Caiado, um dos representante políticos mais importantes da saga familiar retratada pela historiadora.

Embasado por farto acervo, o livro apresenta um Totó mais humano e pluridimensional, que nem de longe lembra o bicho-papão repercutido e repetido por diversas gerações. Seus amores, suas ligações com a família e a terra, suas lutas, sua formação e visão de mundo, a defesa de Goiás na passagem da Coluna Prestes, as articulações políticas, as interligações familiares, as prisões, denúncias, censura e perseguições, tudo é analisado e repensado sobre uma nova ótica, dando início a um novo e repaginado capítulo da história de nosso Estado.

A obra realiza ainda uma explanação dos antecedentes da Revolução de 1930 na região sudoeste de Goiás, dando enfoque à emergência de novas lideranças no cenário político do Estado e ao período de excessão, que se prolongou no Estado Novo e encerrou-se com a redemocratização.  

Inserida na perspectiva mais ampla da história de Goiás e do Brasil,  a narrativa se estende até a construção de Brasília, ressaltando a atuação de políticos goianos no Congresso Nacional em apoio à mudança da capital federal para o Planalto Central, sob a liderança do então senador Emival Caiado. Completa e abrangente, a publicação retrata seis gerações da família e conta com centenas de notas bibliográficas, enriquecidas por dezenas de fotos de época obtidas a partir de acervos públicos e familiares.

Além de recuperar mais de meio século do processo histórico nacional, tratados de forma instigante e inovadora, o livro ainda assegura uma questão fundamental no estudo e na perpetuação da História enquanto ciência: tal resgate permite a abertura para a história do outro, deixando de lado o medo das zonas de sombra do passado para ir além do repetido e consagrado. "Pretende-se que a obra traga relevante contribuição à história e à cultura goianas, sobretudo ao suscitar questionamentos e ensaiar revisões que permitam enfoques atualizados de temas pouco explorados - ou explorados tendenciosamente - pela história tradicional", afirma Lena.

A autora

Atuante na educação e pesquisa histórica há mais de 50 anos, Lena Castello Branco é Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Professora Titular aposentada da Universidade Federal de Goiás (UFG). Como diretora do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFG, fundou os cursos de mestrado em História e em Letras e propôs a criação do Museu Antropológico da Universidade. Em Brasília, foi membro do Conselho Federal de Educação, Diretora Geral do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e Assessora do Ministro de Estado da Cultura.

Com uma longa trajetória de atuação cultural, registra participações significativas: ex-membro e vice-presidente do Conselho de Cultura do Estado de Goiás, sócia fundadora da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e da Sociedade Brasileira de História da Medicina, sócia emérita e diretora da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro titular da Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes e sócia correspondente da Academia Belavistense de Letras, Artes e Ciências. É autora de vários artigos e livros, dentre os quais "Arraial e Coronel: dois estudos de História Social", distinguido com o prêmio "Clio" da Academia Paulistana da História, em 1980. Contista premiada, autora e diretora de peças de teatro, Lena também é cronista semanal do Diário da Manhã. 

Apaixonada por Goiás

Nascida em Parnaíba, no Piauí, Lena reside em Goiás desde 1949, já tendo sido homenageada com os títulos de Cidadã Vilaboense, em 1973, e Cidadã Goianiense, em 2006. Apaixonada pelo Estado, a historiadora enxerga no mais recente projeto uma maneira de homenagear e retribuir a acolhida que recebeu por aqui, contribuindo na valorização da cultura e do resgate histórico local. "Com o presente trabalho tive por objetivo retribuir a generosidade do povo de Goiás, Estado que adotei e onde nasceram meus filhos e netos, assim contribuindo para o melhor conhecimento e valorização do papel desempenhado pelos goianos no contexto da história do Brasil", concluiu.

Poder e Paixão - a saga dos Caiado
Lena Castello Branco Ferreira de Freitas
Goiânia - Editora Cânone, 2009
2 volumes